Archive: Psicologia

Recomendações

Saí um pouco das férias familiares só para recomendar dois artigos muito interessantes que li hoje. Um deles fala sobre a discussão do que é ou não é ciência, que aliás, é uma discussão que sempre envolve a psicanálise, que não se encaixa nos métodos ditos empíricos. http://www.ieppi.org.br/artigosint.asp?id=57 O outro fala um pouco da neurociência, a nova moda do momento. http://www.ieppi.org.br/artigosint.asp?id=59

Me lembrei também de recomendar o livro da Roudinesco, “Por que a Psicanálise”, para aqueles que querem conhecer um pouco de psicanálise, e também para aqueles que se perguntam se a psicanálise ainda é pertinente num mundo cheio de remédios e outras “soluções”.

Em agosto estou de volta! Até mais.

Bom, como uma boa psicanalista, me sinto na obrigação de ler tudo que sai sobre análise, Freud, terapias, enfim, o que a mídia fala sobre o assunto. Volta e meia temos revistas abordando esse assunto, sejam as terapias em geral, seja a própria psicanálise, seja Freud, enfim, os assuntos estão sempre pipocando por ai na “boca” das revistas. E hoje vou dar dois exemplos do que pode ser bom e do que pode ser ruim, muito ruim.

A revista Cult do mês de junho, praticamente esgotada antes do final do mês, fala sobre Lacan. Com artigos escritos por grandes nomes da Psicanálise no Brasil, faz um Dossiê muito bem escrito e repleto de informações acerca da psicanálise Lacaniana. A reportagem pode ser lida tanto por psicanalistas, quando por leigos, interessados ou curiosos, o que costuma ser difícil de conseguir em poucas páginas. Recomendo a leitura.

Agora me envergonha uma revista do porte da SuperInteressante fazer um tamanho mal uso de suas páginas, em uma reportagem muito mal escrita. Muito se fala sobre psicanálise no popular, e muito termos psicanalíticos ganharam a boca do povo. Mas a psicanálise de fato fica bem distante desses ditos populares. O que se diz que é a psicanálise e o que de fato ela é, é o mínimo que poderíamos esperar de uma reportagem que se propõe a pesquisar se uma terapia funciona. Qualquer pessoa um pouco mais interessada em saber sobre psicanálise tem a sua disposição milhares de livros, artigos científicos, e até mesmo boas explicações em sites facilmente achados pelo Google. Além disso, muitos psicanalistas ficariam contentes em explicar, desmistificar e colaborar com a reportagem, Por isso me admira uma jornalista não se dar ao mínimo trabalho de pesquisar para falar sobre psicanálise, na reportagem central da revista SuperInteressante, porque é isso que parece.

Primeiro, a reportagem não fala só sobre psicanálise, se propõe a falar sobre “terapias”, e não poderia ser mais geral. Até o dicionário fala melhor sobre terapia do que essa reportagem. Segundo o dicionário Houaiss, terapia pode ser:

1    tratamento de doentes; terapêutica
2    toda intervenção que visa tratar problemas somáticos, psíquicos ou psicossomáticos, suas causas e seus sintomas, com o fim de obter um restabelecimento da saúde ou do bem-estar; terapêutica

Ou seja, a jornalista foi um pouco otimista achando que poderia falar de todas as terapias que se propõem a tratar o humano ou a doença, e ainda verificar se elas funcionam. E é lógico que não foi isso que ela fez. Pesquisadores passam anos tentando fazer isso e não são tão arrogantes a ponto de se pretender a achar a resposta definitiva para essa questão. Então o título da reportagem só deixa uma ilusão de que poderia ser lido.

Assim, da forma mais superficial possível, a jornalista fala sobre Freud e psicanálise sem ter um mínimo aprofundamento, e comete erros primários nas informações que passa na revista. Claramente defende como melhor possibilidade a neurociência, e chega a nos dar a idéia que a reportagem possa ter sido “financiada” por um neurocientista.

Em um momento da entrevista, depois de falar um pouco de psicoterapias influenciadas por Freud, a jornalista diz que o processo de terapia pode ser longo e não dá garantias. Ora, e que tratamento dá garantias reais de “cura”. Primeiro que a psicanálise não propõe “cura”, e não vou aqui no momento desenvolver isso, em outro texto o farei, mas mesmo a medicina com suas cirurgias, a farmacologia com seus remédios e a neurociência com todo seu aparato também não garantem cura! Na hora H, olhando no olho de um médico antes de aceitar um tratamento, ele nunca garante cura. Uma pessoa pode passar por horas de cirurgia, e ainda descobrir que não adiantou, a doença continua, e terá que passar por outros procedimentos. Um paciente pode passar anos tomando um remédio para um TOC, por exemplo, e esse remédio não só não resolve seu problema, só ameniza, como também acaba tendo que ter doses aumentadas de tempos em tempos, ou mesmo uma série de trocas de remédios para ver qual funciona com cada paciente. A neurociência que se diz agora tão dona da nossa cabeça, também não é capaz de prometer curas, e quanto mais avança, mas se percebe que sempre falta algo que ainda é impossível de medir.

Em outro momento a jornalista desmerece o trabalho de Freud, dizendo que muita coisa que ele concluiu, ele mesmo descartou com o passar do tempo, e que a neurociência já descobriu que os sonhos têm é a ver com as memórias do dia anterior. Todo pesquisador tem o intuito de avançar em sua pesquisa, e de fato, qualquer bom pesquisador, ao perceber que algo não funciona ou não é do jeito que ele havia experimentado antes, ele mesmo descartará suas hipóteses. E isso não é considerado um bom pesquisador? Aquele capaz de não aceitar qualquer resposta as suas perguntas, só pra provar uma hipótese, e sim estar sempre investigando o que de mais ainda pode haver sobre a mesma coisa, criando hipóteses, e assim evoluindo com suas teorias e ciência? Por que então Freud é apontado por descartar hipóteses que obviamente ele substituiu com outras ainda melhores? E de que forma tão absoluta a neurociência se autoriza para absolutizar por medição do que os sonhos se tratam?

Adiante, a reportagem continua dizendo que Freud perde lugar na atualidade por dar valor “aos conflitos interiores do individuo”, sem dar importância ao social. Completa dizendo que a raiz do problema está no social, portanto não é possível prosseguir um tratamento baseado somente na psicanálise. De fato, em muitos casos os pacientes utilizam diversos tratamentos associados. A psicanálise entra num trabalho em equipe, mas nesse trabalho em equipe, um profissional não desmerece o trabalho do outro e é exatamente por isso que o paciente se beneficia. Ficar pregando que só “sua ciência” é capaz de eficácia, isso sim é não visar como centro de tudo o paciente. E não, o centro de todos os problemas de um sujeito não é o meio como ele vive. Os problemas só mudam de nome, mas os conflitos nos seres humanos se fazem presente desde sempre. O social interfere? Lógico, interfere muito, mas os conflitos são do sujeito. E cada sujeito tem um conflito. E por isso a psicanálise enfatiza o sujeito e não o tempo em que ele vive. Atenção, nada é deixado de lado, então dizer que a psicanálise não considera o social, é um erro. Agora dizer também que o social é a raiz do problema é outro erro.

Mas a frente, a jornalista descrever vastos experimentos, usando a neurociência, na busca de comprovar se as terapias funcionam. Ao perceber que 80% das pessoas que fazem terapia saem dos tratamentos melhores do que quem não faz, ela afirma que isso não se deve a Freud, já que suas teorias estão ultrapassadas. Não sei nem por onde começar a debater essa afirmação. Não concordo com a afirmação de que Freud está ultrapassado, mas mesmo se estivesse, com cem anos de existência, a psicanálise não se resume a Freud. E por isso ela não é ultrapassada, pois grandes nomes que vieram depois de Freud conseguiram validar diversas de suas teorias e ainda acrescentar muitas coisas a clínica. E muitas coisas que Freud disse há muito tempo ainda são válidas em pleno ano 2008. Não entendo porque o apego da reportagem a figura de Freud, já que a psicanálise tem nomes importantíssimos que a complementam. Faltou ai ampliar um pouco os horizontes, afinal, muito coisa já aconteceu na psicanálise depois de Freud e com Freud.

Para continuar cutucando Freud, a reportagem comenta sobre o fato de que a eficácia de diversas terapias são tão similares quanto a da psicanálise. Algumas pessoas se tratam com terapias diversas, outras com a psicanálise, e o resultado de “cura” é na mesma proporção. E novamente eu pergunto: quem disse que a psicanálise se pretende a “curar” todo mundo? Quem disse que a psicanálise é para todos? Para fazer um paralelo, é só pensar em quantos remédios existem no mercado para tratar de uma mesma doença? Alguns pacientes não podem tomar um tipo, tomam de outro tipo, e se curam. Cada paciente se cura com um remédio diferente, não necessariamente com o mesmo. Porque seria diferente com as terapias? Cada terapia pode ser boa e adequada a cada situação e paciente, oras! Parece-me mais que a jornalista tem uma visão “endeusada” da psicanálise, que ela mesma desenvolveu, e ela mesma pretende retirar. Não, a psicanálise não se pretende a curar tudo e todos. Até porque isso é impossível. Então sim, o mais normal é que todas as terapias tenham sua eficácia, naquilo em que se propõem a cuidar. Agora, partir disso para dizer que a terapia tem efeito placebo, já é um longo salto…

Para finalizar, e na minha opinião assassinar a idéia de terapia, ela diz que a única vantagem de tudo isso, é que hoje as terapias podem ser mais focadas no resultado. Claro, o paciente agora é produto, o analista um empresário, e eles precisam dar resultado. Era só o que me faltava. Dar resultado pra quem? Se já não bastasse o mundo todo nessa forma capitalista em que só busca o produto, o chamado foco no resultado, ainda querem que a terapia, que se pretende a sair desse esquema, ficar focada em resultado!

Posso dizer que a única coisa boa dessa reportagem foi mencionar que cada vez mais se formam psicólogos de forma “porca” e por isso temos um enxame de psicólogos de meia tigela, sem sua própria terapia, sem formação especifica, enfim, mal sabem de si e da psicologia e se propõem a tratar dos outros. Mas uma pena que folhas e folhas de uma revista antes muito bem prestigiada, tenho sido gasta com uma reportagem tão superficial. Faltou pesquisar, faltou aprofundar, falou saber mais para poder criticar. Foi muito geral e ao mesmo tempo cheia de estereótipos. Basta ser um pouco mais conhecedor para ler e saber que se trata de uma reportagem muito simplória.

Pesquisando um pouco mais sobre isso, percebi que a reclamação não é só minha. E não precisa ser psicanalista pra estar indignado. No próprio site da revista, existe um fórum onde todos podem opinar sobre a reportagem, e lá podemos ver que as indignações foram muitas, de todo tipo de pessoas. http://super.abril.com.br/forum/92357_assunto.shtml

Adicionada a reclamação da reportagem, há uma reclamação por reportagens de meses anteriores, que os leitores categoricamente dizem ser simplórias e sem aprofundamento, digno de vergonha em revista de tal nome. Alguns ainda mencionam que a possível queda tenha algo a ver com a troca de diretoria da revista. Não tenho detalhes acerca de tudo isso, então pouco posso dizer, mas fica a questão a saber, o que está acontecendo com nosso jornalismo. Sabemos que muitas reportagens hoje são financiadas por patrocinadores, e ficamos sempre suspeitos com reportagens como essa, que sem nem ao menos disfarçar, defendem a ferro e fogo uma só ciência. Afinal, não seria o intuito da reportagem mostrar todos os lados da moeda, e deixar as conclusões e decisões para o leitor? Como o leitor pode escolher entre uma coisa tão mal-explicada e outra tão bem-vendida?

Outro dia, na livraria Cultura, quando fui adquirir a revista Cult, e não encontrava, a responsável pela seção de revistas, me disse “que a cult acaba logo, porque é a única revista séria entre as que existem, pois a outra que tinha, Entrelivros, acabou”. Pois é, acabou por falta de anunciante, já que hoje tudo se compra, e tudo se quer vender, e em momento nenhum se pergunta o que queremos adquirir, e muito menos se mostram as possibilidades de escolha. Então qual interesse de anunciar numa revista onde as pessoas têm critica e pensam? Fica realmente mais fácil colocar anúncios em revistas onde as informações são só absorvidas, sem critica. E a psicanálise, que se propõe a não entrar nesse jogo, é atacada tão claramente na figura de Freud, fica a se pensar…

(Quer discutir a psicanálise e saber seus pontos fracos? Ok, existem muitos ótimos autores que o fazem e livros diversos que fazem isso com muita pertinência. Porque até pra falar mal é preciso conhecer a fundo do que se fala.) E é exatamente por isso que não posso comentar muito sobre a autora desta reportagem, pois não consegui descobrir nada sobre ela, nem mesmo reportagens anteriores escritas por ela, o que é uma pena.

E como uma boa reportagem se contrasta com essa. Lembram da reportagem por mim indicada, da revista época, sobre o suicídio? http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG81603-6014-508-1,00-SUICIDIOCOM.html

A reportagem, super bem escrita fala de um assunto super delicado, o suicido, aborda um assunto mais delicado ainda, a entrevista com um psicanalista do menino que se suicidou, e ainda sim consegue ser ótima, pertinente e interessante.

Deixo para vocês minha visão, e espero que possamos partir daqui para dialogar sobre o tema. Leiam as reportagens e tirem vocês mesmo suas conclusões…

Manual de uso

É de causar espanto o número de pessoas que entram no meu blog procurando coisas como: “como clinicar”, “como ser psicanalista clínico”, “como atender em psicanálise”, coisas desse tipo. Acho importante falar um pouco disso porque eu mesma já passei por isso. Acho que a gente sai da faculdade com um pensamento, que tem muito esse formato de “receita de bolo”, e ai começamos a estudar um pouco mais a psicanálise e também achamos que vamos encontrar um “modo de usar”.

 

Bom, se você procura uma profissão que tenha um manual de utilização, então a psicanálise não é a profissão para você. Digo isso, porque a psicanálise é muito subjetiva. Não vou aprofundar essa questão, pois poderia ficar horas discutindo aqui sobre a subjetividade. Posso até estar exagerando, pois algumas linhas psicanalíticas até tem algo próximo a uma “receita de bolo”. Mas falando aqui da psicanálise lacaniana, que não deixa de ser freudiana, entramos novamente na história da subjetividade.

 

Sim, a gente estuda muito, aprende muito sobre coisas gerais. Mas tudo pra servir de base para o singular. Basicamente se defende que casa pessoa é única em sua história e experiências pessoais, e apesar de algumas histórias serem bem parecidas com as de outras pessoas, ainda sim é singular, porque ainda sim terá sua especificidade nos detalhes (redundante, mas é para enfatizar!). Partindo daí, não dá pra fazer um manual de instruções. Não dá pra criar uma receita de como ser psicanalista, ou de como atender psicanaliticamente. Cada caso é um caso. O que a teoria faz é te dar suporte e te preparar na medida do possível (ou do impossível!) para o que você pode encontrar na clínica.

 

Por isso que a formação de um psicanalista é tão demorada e tão complexa. Porque não é exata, ela está baseada, acima de tudo, na própria analise pessoal do analista, e isso não tem data de começo e fim, e não tem fórmula. E é por isso que existem tantos falsos psicanalistas, porque uma área tão subjetiva dá margem a bagunça, e esse talvez seja nosso calcanhar de Aquiles. É verdade, e admito isto aqui. Mas a formação do psicanalista não é oba-oba, e cada psicanalista não faz o que quer no seu consultório, isso já é bagunça. A formação, que inclui a analise pessoal, supervisão dos casos e grupos de estudo é exatamente desta forma para ser o mais completa possível. A análise pessoal nos permite estar aptos a cuidar dos outros, porque primeiro já cuidamos de nós mesmos. Como cuidar da especificidade do outro, como dar conta das questões do outro, quando não cuidamos nem das nossas?

 

Os estudos e a supervisão tentam dar conta e embasar o que é a psicanálise, o que ela se propõe, como ela tenta trabalhar, como as estruturas clínicas existem e operam, e como tudo isso pode acontecer na singularidade de cada caso. Como lidar com tudo isso na prática, como estar sempre preparado para o diferente, enfim, tudo isso é levado em conta na formação. É importante poder estudar casos já atendidos, que servem de exemplo do que pode acontecer na clínica. Esses exemplos servem de base para reformular teorias, ou reafirmá-las, enfim, vai se construindo ao longo da formação uma base pessoal de como estar preparado para receber pacientes.

 

Esse é um assunto muito discutido, daria pra desenvolver muitos tópicos e subtópicos. A questão central deste post, é que não existe manual de instruções para ser psicanalista, não existe um modo de fazer. [Talvez exista um manual do que não fazer (hahaha)!] Mas isso não significa que é bagunça, que é farra, e que se faz qualquer coisa no consultório, pelo contrário, significa que temos que estudar muito pra dar conta dessa enorme subjetividade que nos prestamos a dar conta quando escolhemos a psicanálise por profissão.

 

Por isso, se você se interessa pela psicanálise, o ideal é procurar um local especializado ou grupos de estudos sobre o assunto. Em São Paulo temos escolas ligadas a várias linhas e abordagens, que fazem especializações, ou mesmo grupos de estudos e cartéis. Para quem é iniciante, conhece pouco de psicanálise e quer conhecer mais, tem o CEP – Centro de Estudos Psicanalíticos, que têm vários mini-cursos, palestras, e até mesmo a especialização em psicanálise. O Clin-a também tem um curso de formação em psicanálise, para quem está começando a ler Freud. Já o Fórum do Campo Lacaniano também tem formação, cartéis, cursos e palestras, mas para quem já tem um conhecimento um pouco mais avançado de Freud e Lacan. Joga no Google que você acha os sites!

 

Ah, e claro, antes de tudo, leiam Calligaris, Cartas a um jovem terapeuta, dá uma idéia boa pra quem está interessado e não sabe bem por onde começar, e também pra quem já começou e não sabe bem o que fazer.

Bom, estou pensando em desenvolver um projeto de pesquisa sobre Internet e Psicanálise, estudar um pouco as possibilidades de um contato inicial on-line e perguntas nesse sentido, e ai fui pesquisar sobre o que anda sendo feito nesta questão. É impressionante o número de coisas erradas que a gente encontra na internet.

O CFP fez uma resolução 012/2005, que diz o seguinte, em resumo: 

“(…) CONSIDERANDO que os efeitos do atendimento psicoterapêutico mediado
pelo computador ainda não são suficientemente conhecidos nem comprovados cientificamente e podem trazer riscos aos usuários; (…) Resolve:

CAPÍTULO I - DO ATENDIMENTO PSICOTERAPÊUTICO
Artigo 01: O atendimento psicoterapêutico mediado pelo computador, por ser uma prática ainda não reconhecida pela Psicologia, pode ser utilizado em caráter
experimental, desde que sejam garantidas as seguintes condições: (…)

IV - O psicólogo pesquisador não receba, a qualquer título, honorários da população pesquisada; sendo também vedada qualquer forma de remuneração do usuário
pesquisado; 
   V - O usuário atendido na pesquisa dê seu consentimento e declare expressamente, em formulário em que conste o texto integral desta Resolução, ter
conhecimento do caráter experimental do atendimento psicoterapêutico mediado pelo computador, e dos riscos relativos à privacidade das comunicações inerentes ao meio utilizado;  (…)

Artigo 02: O reconhecimento da validade dos resultados das pesquisas em atendimento psicológico mediado pelo computador depende de ampla divulgação dos resultados e reconhecimento da comunidade científica e não apenas da conclusão de pesquisas isoladas.

Artigo 03: Os psicólogos, ao se manifestarem sobre o atendimento psicoterapêutico mediado pelo computador, em pronunciamentos públicos de qualquer tipo,
nos meios de comunicação de massa ou na Internet, devem explicitar a natureza  experimental desse tipo de prática, e que como tal, não pode haver cobrança de honorários. (…)”

Que eu saiba, não existe nenhuma outra resolução feita depois dessa, se eu estiver enganada, por favor me digam. Assim, partindo desta resolução, fiz uma pesquisa na internet, e levei um susto! Assim, pergunto:

http://www.psicologiaevoce.com/

1. Esse site não tem o selo de aprovação do CFP. È cobrada uma taxa de R$ 40,00 por sessão. No site não tem em lugar nenhum o artigo 03, ou seja, a informação de que o serviço não pode ser cobrado. E ainda, o site está na ar já desde 2006, e onde estão os resultados das pesquisas feitas até hoje, que deveriam ser amplas conforme artigo 02? O site faz questão de informar que as ferramentas usadas não oferecem segurança ao “paciente”, e na resolução existe uma cláusula que obriga o psicólogo a garantir a segurança das informações do paciente. E ai?

http://www.psicologiaaplicada.com.br/atendimentoonline.html

2. Nesse outro site, eles têm o selo de aprovação do CFP, o que torna as coisas ainda mais graves, porque como o CFP dá um selo e não confere? Eles cobram R$ 25,00 por sessão, também não divulgam que o serviço não pode ser cobrado, e apesar de existir um espaço para artigos no site, não ha nada que fale sobre a pesquisa na internet, já que o site está no ar desde 2004, onde estão os resultados das pesquisas feitas até hoje?

http://www.psiconlinechat.com/

3. Esse outro site não coloca valores, mas também não faz nenhuma das outras coisas necessárias, e está no ar desde 2006, onde estão os resultados das pesquisas?

http://www.angelfire.com/ego2/psicanalise_on_line/

4. Esse site cobra R$ 50,00, e se diz fazer psicanálise on line. Está no ar desde 2006, e não tem selo, não divulga que é parte de uma pesquisa, e onde estão os resultados das pesquisas feitas até então?

Se eu continuasse aqui não ia terminar hoje… Gostaria mesmo que pessoas que estiverem fazendo trabalhos sérios na internet apareçam, mostrem suas caras, porque até agora só vi coisas que deixam muitas interrogações e poucas respostas acerca de seus trabalhos. E onde fica o trabalho do CFP em tudo isso, pois ao que parece essa regulamentação só abriu espaço para aqueles que usam a pesquisa como desculpa para ganhar dinheiro em cima de pessoas que precisam de ajuda e não entendem onde estão se metendo. Se algum dos sites mencionados por acaso quiser responder as minhas interrogações, acharei ótimo dialogar e voltar atrás, caso eu esteja errada em alguma coisa.

E para terminar, fiquem atentos aos serviços que procuram na internet!!! Na internet tem muita coisa boa, mas muita coisa ruim também.

Cartas a um jovem terapeuta

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Para quem quer saber um pouquinho da profissão, estudantes ou simples curiosos, esse livro do Calligaris ajuda a dar uma idéia do que é ser psicólogo. É um livro super pequeno e barato, recomendo a leitura para aqueles que estão um pouco confusos sobre a psicologia. Lembrei dele depois de terminar meu último post sobre a formação, e acho uma boa recomendação pra quem quer conhecer um pouco mais.

In treatment

Sim, eu adoro essa série. Mas pra quem já assistiu até o final, é possível usa-lá para mostrar aos estudantes de Psicologia o que NÃO fazer. Achei hoje um Podcast, em Inglês, de uma discussão bem legal sobre a séries. Vale a pena escutar.

http://www.shrinkrapradio.com/2008/03/28/145-a-psychoanalysts-view-of-hbos-in-treatment/#comments

Funny Games - Violência Gratuita

Estou passando por aqui rapidamente só pra falar de um filme sensacional que eu assisti ontem a noite. Funny Games US, http://www.imdb.com/title/tt0808279/ do diretor Michael Haneke, é uma refilmagem de um filme dele mesmo, Funny Games, de 1997. Esse mesmo diretor fez também o filme Caché, outro filme muito bom. Violência Gratuita, (http://epipoca.uol.com.br/filmes_detalhes.php?idf=19243) fala de dois rapazes, psicopatas, que pegam familias como reféns de seus planos mais sórdidos. Se eu falar mais estraga.

O filme é pesado, apesar de não ter cenas de violências, a violência e o suspense ficam no ar do filme o tempo todo. E pra quem gosta de histórias de psicopatas, essa é uma ótima história. E acho um ótimo gancho para discutir a diferença entre Psicóticos e Psicopatas, pois os dois não são a mesma coisa, apesar de haver uma certa confusão com as definições de cada um deles. Não estou com tempo para desenvolver essa discussão agora, em um próximo post o farei, mas já fica aqui escrito que, para a Psicanálise, os Psicopatas estariam mais próximos das estruturas Perversas do que das estruturas Psicóticas. O psicopata tem um transtorno de personalidade que o impede de ser sensível ao outro. Assim, pode cometer crimes e até matar sem demonstrar emoção sobre isso, e, durante os atos, está consciente do que faz.

Bom, fica aqui o trailer do filme e também um link de um texto muito interessante sobre a psicopatia. http://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/o_que_e_um_psicopata__imprimir.html

E pra quem quer saber mais, leia também o livro Psicopatia - Sidney Kiyoshi Shine

PS: E, não, psicopatas não só são pessoas extremamente violentas e loucas, filmes como “O Talentoso Ripley” já mostraram que eles podem ser bem discretos e contidos, vivem entre nós e nem sabemos.

Mais pesquisas

Eu tinha terminado o post abaixo, mas não resisti depois de ver esse frase de pesquisa: “quando achamos que sabemos todas as respostas vem a vida e muda todas as perguntas”. Não é ótimo? E não estou sendo engraçadinha. É ótimo mesmo. Essa pessoa estaria mesmo fazendo uma pesquisa, ou pensando “alto”?

Eu diria que essa frase define muita coisa que se busca em uma análise. Será que devemos sempre responder todas as perguntas? A gente sempre acha que sabe as respostas pra tudo, mas será que sabemos mesmo? Será que um dia saberemos tudo sobre tudo, e conseguiremos responder todas as perguntas?

 

Essa outra: “arrependimento traição amor paixao casamento”. A pessoa praticamente consegue mostrar o caminho que fez do seu sentimento, nessa pesquisa. Está arrependida porque traiu, mas virou amor, paixão, e agora casamento, e dai, o que fazer? E o que espera encontrar como resposta na internet? Ela está procurando respostas, mas só ela pode decidir o que vai fazer.

 

“sintomas quando nao se gosta mais de alguem”: bom, se você já está procurando por isso, é porque alguma coisa errada está acontecendo, não é mesmo?

 

“minha menstruação não desce o que eu faço” (?????)

 

“porque a psicologia tem diversas areas de estudos”: Porque, assim como a Medicina, que tem diversas áreas de estudo e trabalho (Oftalmologia, Urologia, Ginecologia etc), a Psicologia também têm, não só diversos sujeitos de estudo (Individual, Familiar, Casal), como muitas abordagens (Psianálise, Fenomenologia, Behavorismo), e dentro de cada abordagem ainda existem mais divisões, que seguiram determinadas linhas de pesquisas distintas (Kleinianos, Freudianos, Lacanianos, etc). Essa é uma resposta bem resumida. Só pra dar uma idéia da complexidade.

 

Já viram que eu adoro ver como as pessoas vêm parar no meu blog né? Eu acho ótimo.

Respondendo sem ter perguntas

Hoje eu estava olhando o GetClicky, programa que serve pra nos ensinar muito coisa do nosso blog. Ali podemos ver quantas visitas temos por dia, de onde essas pessoas são, e como elas foram parar ali. Sempre dou uma olhada, quando as pessoas vêm de sites de pesquisa, quais foram as frases e\ou palavras digitadas que as trouxeram aqui. As coisas mais interessantes e mais bizarras acontecem. Mas hoje uma me chamou atenção.

Pesquisaram: “fazer pisicanalise pela internet de graça”. Assim mesmo psicanálise escrito errado mesmo. Mas enfim, isso me chamou atenção, porque sei que existem muitas pessoas por ai que tem interesse em fazer Psicanálise ou mesmo ir a um psicólogo, mas não tem condições financeiras de arcar com tal despesa.

Em geral, as pessoas tendem a achar que ir a um psicólogo e\ou ir a um psicanalista é caro e inacessível. Sim, existem psicólogos e psicanalistas que cobram preços altos, mas na minha opinião sempre justos ao trabalho que fazem. Mas também existem muitos que cobram preços muito acessíveis, por muitos motivos. Por estar iniciando a carreira, por trabalhar com pesquisa na área, e necessitar de pacientes para sua pesquisa (e ai os dois se beneficiam), ou mesmo porque sim, o dinheiro é importante, mas mais importante ainda é conseguir atender a população geral, inclusive quem não pode pagar tanto dinheiro por isso, no caso dos estudantes, por exemplo, entre outros. Enfim, muitos psicanalistas e psicólogos cobram preços mais acessíveis. Em geral, podemos considerar como média R$ 80,00 por sessão, sendo que o ideal é uma vez por semana, no mínimo. Dai tem os que cobram mais que isso, R$ 100,00 R$ 150,00, e os que cobram mais barato. Desses que cobram mais barato, dá pra encontrar na faixa de R$ 50,00 e até na faixa dos R$ 30,00. Ai você vai me dizer que os que cobram barato são porque são ruins ou têm alguma coisa de errado. Pode ser. Mas no que eu conheço, não são não. Geralmente são recém-formados, ou mesmo pessoas que optam a cobrar mais barato para conseguir atender mais pessoas de todas as classes sociais. Então, se você tá ai pensando que ir a um psicanalista é um absurdo de caro, ou se é barato é ruim, não é não.

O que acontece é que eu não recomendo que a escolha de um psicanalista seja aleatória. O ideal é que ele seja recomendado por alguém que conheça seu trabalho e saiba que se trata de uma pessoa séria, seja lá o que preço que cobra. Afinal, pessoas que fazem coisas erradas estão em todos os lugares e profissões, cobrando o preço que quiserem.

Há ainda a opção de procurar um psicólogo no plano de saúde. Não sei muito como funciona, mas sei que as sessões, pelo plano de saúde, só podem ser uma por mês, num máximo de 12 por ano, pelo menos essa é a lei. Então acho que fica um pouco complicado trabalhar assim, com encontros tão distantes e com data de término. Nem sempre é possível datar o fim do tratamento.

E para aqueles que realmente não podem gastar um real com isso, mas ainda tem interesse, existem os locais que oferecem atendimentos de forma gratuita. Faculdades que têm Psicologia como curso, geralmente têm centros de psicologia, pois oferecem atendimento ao publico geral, de graça, e ao mesmo tempo treinam seus estudantes. Sei que aqui em SP isso acontece em muitas faculdades, como a Universidade São Judas Tadeu, que fica na Mooca, e tem o CPA: Centro de Psicologia aplicada. Lá a pessoa tem direito a se inscrever para atendimento individual, familiar, de grupo, de casal, e também para crianças. A questão é que, por se tratar de um bom serviço gratuito (esse eu recomendo) sempre tem fila de espera, e no caso do núcleo de psicanálise, a fila de espera chega as vezes a passar de um ano, se o caso não for considerado urgente. Ah, e não sei até que ponto o paciente pode escolher a abordagem que será atendido, pois lá trabalham Psicanalistas e também Psicólogos Behavioristas.

Ainda na parte gratuita, muitos hospitais da rede pública e postos de saúde também oferecem atendimento gratuito, basta ir lá se inscrever. Entramos aqui na mesma questão da fila de espera, mas se a pessoa tem muito interesse, acho que vale a pena se inscrever e esperar. E por último, temos diversas OGN’s de psicologia, que também oferecem serviços gratuitos de psicologia.

O que eu quero dizer, com esse post, é que se a pessoa tem interesse, lugar tem, de graça, barato, caro, hoje qualquer pessoa que queira pode ir a um psicólogo. Muitos estão dispostos a negociar valores que possam ser acessíveis pra quem paga e satisfatórios pra quem recebe. Então, se você tem vontade, indico que vá pesquisar e vá sim buscar a ajuda que precisa.

Ainda não é permitido fazer Psicologia pela internet. Então se alguém estiver oferecendo isso, desconfie. O atendimento pela internet ainda está em fase de estudos e pesquisas, então a não ser que você tenha visto um grupo de internet ligado a uma universidade ou pesquisa, desconfie.

Deixo também ai meu cartão.

Aline - 11 - 5082-4215

PS: tinha outro termo de pesquisa que era “o que fazer com a mente do marido complicada que não admite seus erros” Achei hilário, hahhaa. Percebem o ato falho? O que Freud diria dos atos falhos agora na era da digitação? Será um simples erro?

PS2: Por último, havia mais uma que dizia “como fazer psicanálise clínica”. Essa pergunta achei interessante, mas dificil pensar que existirá uma resposta a altura dessa pergunta assim rapidamente na internet. Psicanálise já é um campo enorme, no qual existem diversas formas de clinicar. Por isso farei outro post sobre isso outro dia.

Todo mundo tem Duas Caras, ou mais…

Estão dizendo que o final da novela Duas Caras vai entrar pra história. Pela primeira vez o vilão vai terminar com a mocinha, e serão felizes pra sempre. Realmente será um marco de uma mudança que já vem aos poucos ocorrendo não só na novela, mas na vida real. As pessoas estão percebendo que não existe o mal e o bem absolutos. Uma pessoa pode ser boa e má, em diferentes situações da vida.

Ouve um tempo em que era possível separar e distinguir o que era bem e o que era mal. Mas, progressivamente, as linhas que separam os valores, sentimentos (e muito mais) estão ficando muito mais tênues. Assim, cada vez mais fica muito difícil encontrar definições absolutas sobre tudo, principalmente sobre o ser humano. Eu acho isso ótimo. Ficamos perdendo tempo nessa tentativa de nos encaixar em definições, enquanto na verdade somos únicos, diferentes uns dos outros exatamente nos detalhes, e as diferenças podem ser tênues, mas estão ali presentes em cada um. Uma decisão que uma pessoa faz, em certo momento da vida, não a define, não diz o que ela vai ser ou deixar de ser no resto de sua vida. Isso no ser humano é maravilhoso, a capacidade de, a cada segundo, tomar decisões que podem mudar completamente o caminho que a vida vinha tomando. E por isso as pessoas têm medo, e se apegam a definições e grupos, porque é muito mais difícil ter que lidar com a responsabilidade que se tem com as próprias escolhas da vida. 

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