Eu e a Psicanálise
22 Feb
Tenho pensando muito sobre meu lugar como analista, meu lugar na psicanálise, e a intimidade do analista nos tempos da internet.
Muito se diz e não diz a respeito do sigilo analítico. Não do que se fala em análise, mas do que é a analista para seu analisando e na sua propria vida. Explico: Segundo Freud e Lacan, o ideal é que o analisando nada saiba de nossas vidas, pois, quanto mais neutros somos mais possibiltamos que o analisando nos veja como o Outro que ele deseja que sejamos, seja esse Outro qualquer figura. Assim possibilitamos a transferencia e a ánalise em si. Passamos de papéis, durante a ánalise, de mãe, pai, irmão, filhos, marido, esposa, exatamente por sermos neutros e possibilitarmos essa transferencia.
Mas algo sempre me incomodou e incomoda com isso. Primeiro porque a neutralidade é simplesmente impossivel. Por trás do analista existe um ser humano, que por mais que faça quinhentos anos de analise e supervisão, tem suas particularidades, inclusivo no tratar com os seus clientes. Assim, já acho que é impossivel ser neutro. E nisso a série In treatment (passa na HBO) fala bem. Até porque não sermos neutros ou mesmo errando também conseguimos ir adiante com a analise. E mais ainda, com diz Irvin Yalom, é errando que muitos analisando nos percebem proximos a eles, implicados em suas histórias. E se torna necessário nossa particularidade para que, em alguns casos, a transferencia se faça.
Também não podemos deixar de falar que vivemos no momento da informação. Ela esta em todos os lugares, e com a internet, se torna impossível não acessa-la. Lá, pesquisando o nome do seu analista você pode descobrir tudo o que ele anda fazendo pela internet e até em sua vida. E nos casos em que o analista consegue não usar a internet, você pode não descobrir nada sobre sua vida pessoal, mas ainda consegue saber tudo sobre sua vida profissional, com o curriculo lattes, com os congressos que participa, enfim, todo o caminho profissional que ele percorre. E, vamos ser honestos aqui, isso já não é o suficiente pra saber muito sobre ele? Podemos pensar, pelas escolhas de pesquisa que faz, que tipos de interesses tem e pra onde caminha.
Tendo acesso a tudo isso, como fica a tal neutralidade? Como fica a relação analista-analisando? A transferencia se faz? Ainda conseguimos ser aquele a quem o analisando verá o Outro que quiser?
Pois eu digo que sim. Pela minha própria experiencia de analise, e com base em alguns pesquisadores do assunto, como Irvin Yalom. Uma vez estabelecida a transferencia, (que pode ocorrer inclusive porque o analisando acha que sabe muito de você, ou porque seus interesses aparentemente cruzam com os dele) a análise é possivel.
Nem tudo é perfeito. Podemos perder clientes dependendo da informaçao que eles leem a nossa respeito. Mas mesmo antes disso já perdiamos quando estes nao tinham o “clic” com o analista escolhido, ou melhor explicando, quando, por qualquer motivo, a transferencia simplesmente não era estabelecida.
Se antes era mais fácil? Talvez, ainda não conseguimos medir o quanto as mudanças afetam o decorrer da ánalise. Mas o importante é pensar que a dificuldade de estabelecer a transferencia e mesmo deitar no divã (se livrando assim da necessidade de ter a figura do analista como Outro)acontecia antes e continua acontecendo agora, pois se trata de um processo de inicio de analise, independente do que o analisando sabe ou pensa saber de seu analista. Cabe aos analistas a função de manejar o quanto essas informações podem se tornar material de analise do analisando e não de si próprio.
