Archive: March 2006

E isso ai…

Se eu fosse parar pra pensar porque determinadas coisas acontecem em determinados momentos, eu ia ficar paranoica. Por isso eu sou paranóica.

 

Se eu achasse que cada vez que roubam meu carro é porque algo não vai bem na minha vida, então a minha vida quase nunca estaria indo bem. Porque meu carro já foi roubado duas vezes, e já roubaram mais de cinco rádios dos meus carros. O que isso significa afinal?

 

Pode significar que eu sou azarada. Pode significar a complexidade da nossa sociedade, que cada vez aumenta as diferenças sociais e cada vez aumenta mais o crime, por bobagem. Pode significar que todos os lugares deveriam ter estacionamento e você não pode mais parar seu carro nem mesmo na porta da sua casa. Pode significar que não deveriamos ostentar nossos carros e rádios, e vivermos todos pobres mas iguais. Enfim, pode significar um monte de coisas “externas”, mas eu sempre paro para pensar o que de “interno” aquilo pode significar.

 

Alguns acham isso radical, dizem que certos acidentes ocorrem por simplesmente você estar vivo, e que de fato você nem sempre é responsável por tudo que te acontece de ruim e bom na sua vida. Mas ai eu penso que é muito fácil você se responsabilizar pelas coisas boas, mas as coisas ruins responsabilizar ao acaso.

 

Então, porque neste momento roubaram meu carro? Porque eu não deveria querer gastar dinheiro com meu casamento? Porque é rídiculo querer casar depois que você já está casada e tem mais o que fazer com seu dinheiro? Porque é rídiculo querer gastar 500,00 no seu vestido (detalhe:o mais barato depois de dois dias andando e provando roupa)? Porque quando estou fazendo algo que eu quero muito, me boicoto para não ficar feliz?

 

Não sei. Talvez nunca terei essas respostas. Mas o que sei é que estou de saco cheio de ser roubada, de saco cheio de não poder ficar feliz sempre porque na sequencia vem uma coisa ruim. Porque o Rodrigo vai ficar puto da vida comigo e não vãi me dizer. Porque a gente vai ter que gastar dinheiro pra consertar a porta. Porque toda ida vou me lembrar que antes do casamento o carro foi roubado mais uma vez. Porque eu tô puta da vida. Porque a gente economiza economiza, gasta menos, corta pessoa daqui e dali da lista, e ai roubam teu rádio.

 

Inferno.

Mais do mesmo

De repente, como se um destino médico me houvesse operado da cegueira antiga com grandes resultados obtidos, ergo a cabeça, da minha vida anônima, para o conhecimento claro de como existo. E vejo que tudo quanto tenho feito, tudo quanto tenho pensado, tudo quanto tenho sido é uma espécie de engano e de loucura. Maravilho-me do que consegui não ver. Estranho quanto fui e que vejo que afinal não sou.

 

Olho, como numa extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais certos , as minhas ideias mais claras, e os meus propósitos mais lógicos, não foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande desconhecimento. Nem sequer representei. Representaram-me. Fui, não o ator, mas os festos dele.

 

Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou a um ente falso que julguei meu, por que agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momento de ver, um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo do que pensei, nao fui eu.

 

Vem-me, então, um terror sarcástico da vida, um desalento que passa os limites da minha individualidade consciente. Sei que fui erro e descaminho, que nunca vivi, que existi somente porque enchi tempo com consciencia e pensamento. E a minha sensação de mim é a de quem acorda epois de um sono cheio de sonhos reais, ou a de quem é liberto, por terremoto, da luz pouca do cárcere a que se habituara.

 

Pesa-me, realmente me pesa, como uma condenação a conhecer, esta noção repentina da minha individualidade verdadeira, dessa que andou sempre viajando sonolentamente entre o que sente e o que vê.

 

É tão dificil escrever o que se sente quando se sente que realmente existe, e que a alma é uma entidade real, que não sei quais são as palavras humanas com que possa defini-lo. Não sei se estou com febre, como sinto, se deixei de ter a febre de ser dormidor da vida. Sim, repito, sou como um viajante que de repente se encontre numa vila estranha sem saber como ali chegou; e ocorrem-me esses casos dos que perdem a memória, e são outros durante muito tempo. Fui outro durante muito tempo - desde a nascença e a consciencia, e acordo agora no meio da ponte, debruçado sobre o rio, e incognita, as ruas novas, e o mal sem cura. Espero, pois, debrucado sbre a ponte, que me passe a verdade, e eu me restabeleça nulo e ficticio, inteligente e natural.

 

Foi um momento, e já passou. Já veio os móveis que me cercam, os desenhos do papel velho das paredes, o sol pelas vidraças poeirentas. Vi a verdade um momento. Fui um momento, com consciencia, o que os grandes homens são com a vida. Recordo-lhes os atos e as palavras, e não sei se não foram também tentados vencedoramente pelo demonio da realidade. Não saber de si é viver. Saber mal de si é pensar. Saber de si, de repente, como neste momento lustral, é ter subitamente a noção da mónada íntima, da palavra mágica da alma. Mas essa luz súbita cresta tudo, consume tudo. Deixa-nos nus até de nós.

 

Foi só um momento, e vi-me. Depois já não sei se sequer dizer o que fui. E, por fim, tenho sono, porque, não sei porque acho que o sentido é dormir.

 

F. Pessoa

Começando o inferno astral

O relógio que está lá para trás, na casa deserta, porque todos dormem, deixa cair lentamente o quádruplo som claro das quatro horas de quando é noite. Não dormi ainda, nem espero dormir. Sem que nada me detenha a atenção, e assim não durma, ou me pese no corpo, e por isso não sossegue, jazo na asombra, que o luar vago dos cadeeiros da rua torna ainda mais desacompanhada, o silêncio amortecido do meu corpo estranho. Nem sei pensar, do sono que tenho, nem sei sentir, do sono que não consigo ter.

 

Tudo em meu torno é o universo nu, abstrato, feito de negações noturnas. Divido-me em casado e inquieto, e chego a tocar com a sensação do corpo um conhecimento metafísico do mistério das coisas. Por vezes amolece-me a alma e então os pormenores sem forma da vida cotidiana boiam-se-me a superfície da consciencia, e estou fazendo lançamento à tona de não poder dormir. Outras vezes acordo dentro do meio-sono em que estagnei, e imagens vagas, de um colorido poético e involuntário, deixam escorrer pela minha desatenção o seu espetáculo sem ruídos. Nao tenho os olhos inteiramente cerrados. Orla-me a vista frouxa uma luz que vem de longe; são os cadeeiros públicos acesos lá em baixo, nos confins abandonados da rua.

 

Cessar, dormir, substituir esta consciencia intervalada por melhores coisas melancólicas ditas em segredo ao que me desconhecesse… Cessar, passar fluido e ribeirinho, fluxo e refluxo de um mar vasto, em costas visíveis na noite em que verdadeiramente se dormisse… Cessar, ser incognito e externo, movimento de ramos em áleas afastadas, ténue cair de folhas, conhecido no som mais que na queda, mar alto fino dos repuxos ao longe, e todo o indefinido dos parques na noite, perdidos entre emaranhamentos contínuos, labirintos naturais da treva! Cessar, acabar finalmente, mas com uma sobrevivência translata, ser a página de um livro, a madeixa de um cabelo solto, o oscilar da trepadeira ao pé da janela entreaberta, os passos sem importância no cascalho fino da curva, o último fumo alto da aldeia que adormece, o esquecimento do chicote do carroceiro a beira matutina do caminho… O absurdo, a confusão, o apagamento - tudo que não fosse a vida…

 

E durmo, a meu modo, sem sono nem repouso, esta vida vegetativa da suposição, e sob as minhas pálpebras sem sossego paira, como a espuma quieta de um mar sujo, o reflexo longinquo dos cadeeiros mudos da rua.

 

Durmo e desdurmo.

Do outro lado de mim, lá pra trás de onde jazo, o silèncio da casa toca no infinito. Ouço cair o tempo, gota a gota, e nehuma gota que cai se ouve cair. Oprime-me fisicamente o coração físico a memória, reduzida a nada, de tudo quanto foi ou fui. Sinto a cabeça materialmente colocada na almofada em que a tenho fazendo vale. A pele da fronha tem com a minha pele um contato de gente na sobra. A própria orelha, sobre a qual me encosto, grava-se-me matemáticamente contra o cérebro. Pestanejo de cansaço, e as minhas pestanas fazem um som pequeníssimo, inaudível, na brancura sensível da almofada erguida. Respiro, suspirando, e a minha respiração acontece - não é minha. Sofro sem sentir nem pensar. O relógio da casa, lugar certo lá no fundo das coisas, soa meia hora seca e nula. Tudo é tanto, tudo é tão fundo, tudo é tão negro e tão frio!

 

Passo tempos, passo silêncios, mundos sem forma passam por mim.

Subitamente, como uma criança do Mistério, um galo canta sem saber da noite. Posso dormir, porque é manhã em mim. E sinto a minha boca sorrir , deslocando levemente as pregas, moles da fronha que me prende o rosto. Posso deixar-me a vida, posso dormir, posso ignorar-me… E, através do sono novo que me escurece, ou lembro o galo que cantou, ou é ele , de veras, que canta segunda vez.

 

F. Pessoa

Irmãos

O Gabriel implica com o Vinicius que é uma coisa de louco… mas eu tenho dado uns flagrantes nele engraçados. Ontem eu peguei ele acalmando o Vincius, que estava chorando. Hoje o Vinicus não estava conseguindo pegar um brinquedo, ele foi lá e deu na mãe dele. Depois ficou do lado dando brinquedos pra ele brincar. Queria ver tv, mas como o Vinicius estava em pé lá, ficou atrás dele, numa boa. Depois ficou brincando com ele uns dez minutos direto. Mas ai ele reparou que eu estava olhando, e já logo soltou “manhê, olha o Vinicius aqui…”.Engraçado esse Gabriel, parece alguem que eu conheço… hahahaha!

Let´s get loud

- Quem é você?
- Sei lá, vi você por aqui e quis bater um papo, tudo bem?
- Na verdade não, estou um pouco ocupada.
- Tem certeza? Então tá. Você está sempre ocupada.
- É verdade. Sorry.

- Porque você não me responde?
- Porque quando eu vejo, já passou um tempão.
- Tendi. Tá fazendo o que agora?
- Escrevendo umas bobagens. E vc?
- Nada, só trabalhando.

- Lembra aquele dia que a gente se encontrou, depois saimos e batemos papo?
- Que dia?
- Aquele dia que você estava de roupa rousa, com o cabelo preso, e com brinco longos.
- Umm, não me lembro não.
- Poxa, como não?
- Meu, desculpa, não lembro. Porque?
- Por nada. Té mais então.
- Tchau.
(Aquele foi o dia que eles se conheceram, e deram o primeiro beijo. Ele ficou desapontado, tadinho).

- Você podia vir aqui em casa agora né? Tá um friozinho gostoso, a gente podia ficar junto embaixo das cobertas, e ver um filme, tomar um chocolate quente…
- Ah, que preguiça. Porque você nao vem aqui? Podemos fazer a mesma coisa aqui, e ainda tenho muitos filmes pra escolher…
- Poxa, você nunca vem aqui, eu sempre que vou ai.
- Ah, eu tô morrendo de preguiça.
- Pois é, eu não tenho preguiça pra ir ai nunca, e é a mesma distância. Eu vou né, fazer o que? Se eu não for, você não vem….
- EEEEEE!!! Tô te esperando. Passa na padaria e compra cigarro?
- Tá bom vai… té mais.

- O que você tem?
- Nada.
- Tem certeza?
- Tenho, porque?
- Porque você está estranha.
- Tô nada, impressão sua.
- Então tá.
- Vou embora tá?
- Porque?
- Por nada, estou cansada.
- Descansa aqui ué.
- Ah não, quero ir pra minha casa. Eu vivo aqui.
- Bom, você quem sabe.
- Tchau. A gente se fala.
- Eu te amo.
- Tá bom. Té mais.

Cotidiano

Hoje não estou conseguindo encontrar palavras para expressar o que estou sentindo. Isso acontece, as vezes. Fico uns dois, tres dias pensando para finalmente conseguir escrever o que se passa na minha cabeça.

I dont need the hurt, and I dont need the pain. Would you comfort me?

Cotidiano

- Oi, tudo bem?
- Tudo e você?
- Tudo.
- E como vão as coisas, as novidades?
- Nada de novo, tudo na mesma. E você?
- Trabalhando muito, de resto, tudo igual.
- Ah, então tá.
- Você me ama?
- Hein?
- Isso mesmo, você me ama?
- Nossa, porque essa pergunta agora?
- Sei lá, só pra saber.
- Ah tá.
- Mas você ainda não respondeu. Você me ama?
- Amo. E você?
- Eu o que?
- Me ama?
- Ummm, amo sim.
- Que coisa né?
- É.
- E o que a gente faz agora?
- Deixa pra lá. Eu to atrasada. Outro dia a gente se fala.
- Tá bom então. Beijos.
- Beijos, fui.

(Ele sai do msn, mas antes salva a conversa, pra lembrar, quando der saudades.)

Apices

Ápices que vem e vão, mostram sentimentos ténues, fragéis como um puro cristal…

As palavras faltam

As palavras faltam,
Tal como a vontade
De escrever,
Pois a inspiração
Esfuma-se a cada instante…

E cada momento
O viver torna-se
Ténue, rarefeito.
São momentos,
São instantes de uma vida…

Talvez sem sentido,
Talvez sem uma razão
Lógica…


Fim do dia…

O fim do dia aproxima rapidamente, a escuridão toma conta da luz do dia, são momentos de reflexão, de visão sobre o futuro, que futuro? Qual será? Como será o amanhã, o que me reserva? São questões e mais questões! Dúvidas que coloco a mim mesmo… talvez não é necessário, basta respirar e esperar que o futuro venha até mim… mas não consigo, sou apressado, quero saber mais… quero sonhar, divagar pelo tempo, pelo espaço, quero voltar a ser uma criança e saltar de sonho em sonho com facilidade que elas conseguem… Quero sentir-me vivo, quero respirar, não quero sofrer, pois a vida é curta demasiado curta, são dois dias e quando acordamos é tarde demais. Mas o será que o futuro reserva-me? Fico na dúvida é melhor assim, espero até amanhã…

 

…vento que passa.

Cinzas que desvanecem ao sabor do vento que passa. Algo que resta, algo que esvai-se. Talvez nunca existiu, talvez foi uma alegre memória. Um sonho? Talvez! E as cinzas desaparecem tal como as memórias daquilo que não foi, mas que poderia ter sido. Foram palavras ditas, talvez sem sentido, talvez sem sentimento. Ditas e agora desditas pelas acções do momento. Momento esse que se encontra em branco, ausente de sentimentos, de palavras. Continua esta espera que a cada momento termina, pois as cinzas espalham-se no tempo e no espaço ao sabor do vento que passa.

*from http://apices-momentos.blogspot.com/

I can be anything you need

http://epistolasurdas.blogspot.com/


Eu vejo você dormir, e tudo me enche de paz.

J.Lo

É impressionante como as músicas da J.Lo sempre tem alguma coisa pra dizer sobre a minha vida, ou sobre um momento que estou passando. Em 2002, Walking on Shunshine. Em 2004, Still, I´m Glad. Tem outras , mas essas foram as que mais me marcaram, nos acontecimentos da minha vida.

“This is me… then”

Hoje ainda não choveu.

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