Nov
21
2009

Indicação de Leitura

Ando com muitas idéias, mas ainda não consegui parar para colocá-las no papel. Porém, tenho lido muito. E aqui vai uma indicação de leitura. O texto é da Eliane Brum, que escreve para a Revista Época. No texto ela fala dos adultos de hoje, que não passam de crianças grandes. Contratam pessoas para fazer o que eles não querem: escolhas. Com isso não assumem responsabilidade, e não conseguem educar seus próprios filhos. Para ser pai, é preciso, primeiro, sair da posição de filho.

“Se não conseguimos crescer, como será possível educar os filhos?

(…) Me parece que hoje há algo novo nesse cenário. A partir do século XXI, vivemos a era dos adultos infantilizados. Uma espécie de infância permanente do indivíduo. Não é por acaso que os coaches proliferam.Coach, em inglês, significa treinador. Originalmente, treinador de times e de esportistas. Mas que foi ampliada para treinador de tudo, inclusive de como viver: os life coaches. Personal trainers têm função semelhante. Treinar alguém para se exercitar, comer, se vestir, namorar, conseguir amigos e emprego, lidar com conflitos matrimoniais e profissionais, arrumar as finanças e também organizar os armários e a mesa de trabalho, como na sugestão do meu amigo. (…)

Ao nos reduzirmos a adultos que precisam de babás por total incapacidade de lidar com qualquer aspecto da vida, do sentimental ao profissional, a que renunciamos? A muito. Mas o principal é que renunciamos à responsabilidade. A construção contemporânea de infância está fundamentada no conceito de que, tanto no estatuto social quanto no jurídico, crianças são seres com direito à proteção e à educação – mas sem responsabilidade pelos seus atos. Crescer, tornar-se adulto, é justamente passar a responsabilizar-se pelos seus atos. Mas, no caso das novas gerações de 20, 30, 40 anos, se isso ainda vale para o estatuto jurídico, parece perder força no estatuto social.

Os adultos desse início de milênio parecem prolongar a infância no sentido da não-responsabilização. São sinais, aqui e ali, de uma transformação na forma de ver a si mesmo – e de ser visto. É corriqueiro testemunhar, seja no bar ou na empresa, gente que fica muito surpresa porque seus atos motivaram uma reação indesejável, uma conseqüência pela qual precisam responder. Nesse momento, vemos adultos com cara de surpresa, olhos arregalados como os de uma criança. Parecem pensar: “Mas por que eu, que sou tão bacana, tão inteligente, tão cool?”. Quando podem, chamam os pais, os advogados…. os coaches para salvá-los. A expectativa, como um direito adquirido, é a de que sempre serão “perdoados”.

Da mesma maneira, encarnam a geração do “eu mereço”. Se não há responsabilidade pelos seus atos, também não há responsabilidade pelas suas conquistas. Está cada vez mais diluída a ideia de trabalhar por aquilo que se quer com a consciência de que custa tempo, esforço, dedicação. Escolhas e também perdas, frustrações. Alcançar sonhos, ideais ou mesmo objetivos parece ser compreendido como uma consequência natural do próprio existir, de preferência imediata. É uma espécie de visão contemporânea da ideia mística de destino, de predestinação. Ou apenas uma questão de usar a estratégia certa. E, para nos ensinar a traçá-la, buscamos um business coach.

O “eu mereço” vem a priori. “Eu mereço porque eu sou eu”. Ou: “Eu existo, logo mereço”. O fazer por merecer foi eliminado da equação. Quando essa crença, tão fundamentalista quanto os preceitos de algumas religiões, fracassa, aí é hora de buscar o happiness coach (treinador de felicidade), o dating coach (treinador de relacionamentos amorosos), o health coach (treinador de saúde), o conflict coach (treinador de conflitos matrimoniais e profissionais), o diet coach (treinador de alimentação saudável). O life coach. É estarrecedor verificar como as gerações que estão aí – e as que estão vindo – parecem não perceber que a vida é dura e dá trabalho conquistar o que se deseja. E, mesmo que se esforcem muito, haverá sempre o que não foi possível alcançar.

(…) Para além das boas hipóteses das muitas teses e debates sobre o fenômeno da infância insuportável, me parece que vale a pena pensar sobre quem são os pais dessas crianças. Se os pais são adultos infantilizados, que não conseguem se responsabilizar pelas suas vidas – e muitos nem acham que precisam… –, como esperar que suas crianças se responsabilizem? Como esperar que os pais sejam pais se continuam sendo filhos?

Esses pais continuam sendo filhos ao não responsabilizarem-se pelas suas vidas. Ao permitir que seus filhos façam o que bem entendem, não só dentro de casa, mas no espaço público, estão escolhendo o que dá menos trabalho. Sim, porque educar, botar limites, se importar, dá muito trabalho. E exige tempo, gasto de energia, esforço. Amor. O mais fácil é deixar para lá. Ou bater a porta da rua e deixar que a babá – a de seus filhos – se vire. Mas há algo mais.

Me parece que a permissividade com os filhos é uma permissividade consigo mesmo. Se os filhos encarnam o ideal dos pais, se neles estão colocados os desejos e as melhores esperanças dos pais, não seria de esperar que o ideal de pais infantilizados seja o de que os filhos possam tudo? Bem ou mal, ainda que andem pelo mundo como se não tivessem responsabilidade nem por si mesmos nem pelos destinos do planeta, em alguma medida esses adultos precisam lidar com as consequências de seus atos – ou não-atos.

É de se esperar que, para os filhos, desejem, consciente ou inconscientemente, que possam fazer tudo sem nenhuma espécie de retaliação. Aos filhos, tudo deve ser permitido. Algo como: “se para mim não está sendo assim, que pelo menos seja para os meus filhos”. Um ideal tão óbvio como é o desejo que os filhos se formem na universidade para os pais que não puderam estudar ou que o filho tenha casa própria para os pais que viveram a vida inteira de aluguel.”

(Para ler o texto inteiro, clique aqui.)

1
Nov
13
2009

A formação e o currículo lattes

Eu já ia começar a gastar meu português para dizer tudo que acho sobre a máfia da academia, muito bem representada pelo currículo lattes, mas não vou. A algum tempo, influenciada pela postura da psicanálise lacaniana, me recuso a fazer parte desse meio. “Engordar” um currículo, com artigos que não dizem nem acrescentam nada, apresentações que não tem ouvintes nem discussão, enfim, todas as coisas que se exigem que um “acadêmico” faça pelo bem da pesquisa (???), via lattes, nunca fez e continua não fazendo nenhum sentido pra mim. Acredito que acaba sendo natural publicar artigos ou apresentar trabalhos quando já se está envolvido em alguma pesquisa, e podemos realmente contribuir com alguma coisa, mas não o inverso. Mas, nesse ponto, não ficamos preocupados se teremos certificados, ou se isso vai engordar ou não nosso currículo. O currículo devia ser conseqüência, e não um objetivo final em si mesmo.

Mas, enfim, eu comecei dizendo que não ia gastar meu português, porque alguém já o fez maravilhosamente. Faço minhas as palavras de Rafael Marinho, em um texto muito bem escrito, sobre o assunto.

“Os críticos dizem que o Lattes transforma todo o esforço intelectual dos pesquisadores em quantidade, em números, simplificando e até ridicularizando uma produção eminentemente qualitativa. Ocorre que no final do Lattes há uma tabela informando quantos artigos foram publicados, quantos livros ou capítulos de livros, de quantos congressos o fulano participou. Mas até aí nenhuma novidade, se você começou a ler este texto provavelmente já sabe o que é e como funciona o Currículo Lattes. A novidade é que um bom Lattes tem preço.”

(Cliquem no texto para continuar lendo)

Obs: Parece ridícula a crítica, quando falamos mal, mas estamos lá na academia com nossos lattes. Mas se tem uma coisa que aprendi a duras penas, é que sentar e criticar de fora não ajuda em nada. A gente tem que sujar as mãos para conseguir mudar alguma coisa.

0
Nov
10
2009

A estranheza da Psicanálise

Já escrevi outros textos sobre a formação do analista, como este, mas o assunto sempre volta, principalmente nesses dias em que o Estado quer regulamentar a profissão dos Psicanalistas.

Sou contra, e não estou sozinha nessa luta. A população em geral não costuma entender o porquê, e acham que costumamos gostar do certo ar misterioso que envolve a psicanálise e tudo que deriva dela. Não é nada disso! Freud, lá longe, já comentava sobre a estranheza que a psicanálise causava nas pessoas! “Não ficaria surpreso em ouvir que a psicanálise, que se preocupa em revelar essas forças ocultas, tornou-se assim estranha para muitas pessoas por essa mesma razão”

Como saber quem é mesmo psicanalista e quem não é? Como é essa formação que não tem regras pré estabelecidas? Quem pode se dizer analista, se Lacan disse que os analistas se autorizam? Quais as garantias que tenho que vou ou não me tornar analista, se a formação não tem data de começo e fim?

Enfim, muitas perguntas como esse aparecem, tanto para as pessoas fora do meio psicanalítico, quando para estudantes que estão começando a se enveredar por esse caminho.

Não regulamentar a profissão tem seus lados positivos e negativos. O grande lado negativo, por exemplo, é que hoje temos um número muito grande de instituições e pessoas que se dizem psicanalistas, ou formadores de psicanalistas, e nem de perto o são. Mas, em dias de Google, dar uma pesquisada para descobrir quem são essas pessoas e essas instituições já ajuda. Pesquisar na plataforma Lattes também pode ajudar um pouco.

Estou falando tudo isso, e deixando mais perguntas do que  respostas, para apresentar o novo livro do Antonio Quinet, “A estranheza da Psicanálise, a escola de Lacan e seus analistas”.

Esse é o livro mais recente, de um série de livros que abordam questões fundamentais da psicanalise e da formação do analista, e vem discutir porque nao somos a favor de uma regulamentação da profissão, e porque esclhemos a causa analítica pelas mãos de J. Lacan.

Agora que a dica foi dada, deixo um gostinho do livros para vocês!

“Como nossa civilização atual, e consequentemente o seu mal-estar, advém das Torres Gêmeas, uma representando o capitalismo e a outra o discurso técnico-científico (…) A Escola não pode se deixar dominar pelas neurociências, pela industria farmacêutica, pela política dos resultados, pela lógica foraclusiva do mercado”

“Não há formação do analista, há formação de Inconsciente. Essa frase do Lacan remonta a impossibilidade de padronização generalizada de formação analítica para habilitar o analista à prática. O processo de formação analítica, que não deixa de existir, é necessariamente desregulamentado, pois só há formação individual, cuja responsabilidade cabe ao analista, e não tutela por parte de um grupo, Sociedade, Escola ou Estado. (…) A tendência a regulamentação está dentro da lógica atual da sociedade escópica, com a espionagem – a presença do olho do Outro, o Estado, por exemplo – e com o controle generalizados que invadem a vida privada, a pretexto de uma pretensa segurança justificada pelo bioterrorismo, e a ampliação da religião em seu aspecto mais fundamentalista. (…) A tendência a formar grupos, ou seja, uma massa comandada por um líder, é impulsionada pela negação da falta no Outro, fazendo o sujeito criar e acreditar em Um Outro sem falta personificado pelo ideal do eu, onde ele situa o líder, Um Pai, que responde a suas interrogações.”

0
Nov
10
2009

A Vision of Students Today

0
Nov
06
2009

Sexualidade e Reprodução

Ao nascer, não temos registro inconsciente da sexualidade. Vamos crescendo, e aprendendo sobre o nosso corpo. Aprendemos que temos órgão sexual feminino ou masculino. Mas isso não tem nada a ver com sexualidade. Não sabemos como vamos gostar de exercer nossa sexualidade e nem com quem.

A primeira coisa que os pais fazem, quando nasce um bebe, é sexualizar este bebê. Os pais acariciam, desejam, amam, abraçam, apertam… Enfim, tudo isso que se faz quando têm um filho recém nascido em casa. Ai, quando a coitada da criança vai crescendo, lá vão os pais para a segunda etapa do desenvolvimento sexual da criança: vão tentar dessexualizá-la. Aos poucos eles vão mostrando que ela não é a coisa mais importante do mundo, que não pode ser a coisinha mais querida da mamãe, e que o mundo é duro, cruel, e ela não será necessariamente amada e desejada por quem é. Seus desejos não podem ser falados assim abertamente, de vez em quando ela vai ter que mentir e se encaixar nos padrões sociais, etc etc. E ainda tem gente que acha a infância o melhor tempo de todos! Criança sofre.

Sofre mais porque vai crescendo, e querem enfiar na cabeça dela que sexualidade está ligada ao órgão sexual que ela possui. Freud já dizia lá longe que não fomos feitos para reproduzir. Quem disse isso foi muito cruel com a gente. Somos seres sexuais, e nossa sexualidade não é feita só para reproduzir não. Pelo menos não psiquicamente falando. Então, nossa sexualidade vai depender de diversos fatores ao longo do nosso desenvolvimento. No final, podemos ser tanta coisa, gostar de tanta coisa, mas ainda temos que nos encaixar nos ditos que nos prendem a um sexo-reprodutivo, de macho-fêmea, reféns do nosso órgão sexual?

Está aberta a quinta edição do Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero. O prêmio é dirigido a estudantes de escolas de Ensino Médio e a universitários em nível de graduação, mestrado e doutorado e integra o Programa Mulher e Ciência. O Programa é desenvolvido pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República em parceria com os Ministérios da Educação e Ciência e Tecnologia, com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e o Fundo das Nações Unidas para a Mulher (UNIFEM). Trata-se de um conjunto de ações que objetivam estimular a reflexão sobre as relações de gênero e as desigualdades derivadas da discriminação por sexo, raça, cor e orientação sexual na sociedade brasileira, seus impactos nas carreiras acadêmicas, e fomentar a produção de conhecimento na área.

Aqui está o site do evento desse ano, e aqui a relação dos textos ganhadores do ano passado. R$8 mil reais ganha o texto escolhido. Mais detalhes no site.

0
Nov
06
2009

Direto do quadrado

O mundo contemporâneo é feito de pessoas atrás de quadrados. Os quadrados são muitos, e cada vez aumentam mais. É a televisão, o computador, os vídeo games, notebooks, televisões maiores ainda, DVDs portáteis, celulares com tudo dentro…

O mundo atrás das caixas é um mundo aparentemente mais fácil. Quando estamos sentados em frente ao quadrado, não precisamos encarar a realidade de nossas vidas. Deixamos de fora do quadrado o que quisermos, e podemos ser qualquer coisa: protagonista de novela, galã de série de TV americana… Podemos esquecer que as contas estão vencendo e o dinheiro está faltando; que a esposa aparenta estar infeliz; que o marido tem passado tempo demais na rua; que os filhos andam tendo problema na escola; que um filho é esquisito e não me reconheço nele; que o trabalho de todo dia em nada tem a ver com o que planejamos pra nossa vida; que passamos ano após ano sem conseguir sair do nosso aprisionamento rotineiro, seja lá qual for.

Quando estamos atrás do quadrado, tudo isso se vai, mesmo que temporariamente. Na internet podemos nos mostrar fortes, podemos perder tempo com grandes questões existenciais ou da moda; mostrar o quanto somos intelectuais, nerds, gostosas, desejáveis. Mesmo que estejamos sentados ali pra esquecer um pouco do carro que está velho, do aluguel atrasado, da viagem que nunca será realizada.

Outras pessoas também usam o quadrado pra se sentir parte de algo, e por isso passam horas escrevendo sobre como são infelizes, míseros e deprimidos com a vida. E enfatizam a culpa do mundo e da sociedade “lá fora”, e como não se pode fazer nada.

Passamos o dia ou a maior parte dele atrás dos quadrados. Assistimos a beleza do mundo através de uma TV, gritamos a nossa raiva de nós mesmos para o primeiro que falar uma besteira no twitter; olhamos fotos pornográficas para não esquecer que somos seres desejantes. Comentamos a última chuva em SP, a última fofoca das celebridades, e assim vamos preenchendo nosso tempo com amenidades. Tudo pra tamponar algo que nos falta. Se não preencheremos nosso tempo com Gmail, Google Reader, Wave, Twitter, blogs, teríamos tempo demais para pensar naquilo que nos incomoda. Ficaríamos muito tempo contemplando a nossa falta, aquilo que um dia pensamos ter, mas não existe. Tudo aquilo que não temos coragem de mudar, porque está arraigado demais em quem somos. Tudo aquilo que faz doer a alma, que faz pensar qual o sentido da vida.

A internet veio preencher um vazio que incomodava demais. É como uma droga, só tampona a falta enquanto faz efeito, então queremos estar drogados o tempo todo pra não ter que lidar com que somos sem ela. O mesmo para internet. A gente cria um personagem dentro do quadrado, e ele nos permite sem menos do que somos, e isso não necessariamente é ruim. O simples ato de desligar o quadrado, levantar da cadeira as vezes parece uma coisa tão difícil…

Muitos achavam e acham que a psicanálise tende a levar o sujeito a resignação. Pensa bem: se tudo que a análise pode fazer por você, é fazê-lo se aceitar como um ser castrado, que o sintoma não tem cura, e tudo que podemos fazer é aprender a se rearranjar com tudo isso na vida, pra que raios a pessoa precisa do analista e da psicanálise? Não parece que levamos para o final de análise um sujeito resignado?

Isso é exatamente o que grande parte dos lacanianos quer mostrar que não. Sim, tudo isso é verdade: nunca seremos completos; sim, somos castrados; nunca nos livraremos de um sintoma; mas nada disso significa que seremos infelizes, ferrados e mal pagos. No final, tudo que a psicanálise quer é que o sujeito possa ser feliz, que o sujeito não leve a vida tão sofrida. Não é uma ilusão de felicidade dos contos de fada, onde tudo é perfeito. É possível ser feliz na nossa realidade, com castração, sintoma e tudo mais. Podemos sair do nosso ciclo de repetição sintomática. Como? Bom, se fosse fácil assim dar essa resposta, eu estaria escrevendo um livro de auto-ajuda e provavelmente já ia estaria rica, hahahah…. Deixo essa questão para sua reflexão pessoal. Ou para sua análise pessoal.

0
Oct
31
2009

O mundo lá fora da academia

Laerte

0
Oct
07
2009

A inclusão e nossos limites pessoais

As pessoas têm seus limites. Acredito que elas fazem o que podem, diante das situações, e por isso sempre fazem o seu melhor. O melhor delas pode não ser o que se espera que façam, mas isso não siginifica que não estão se esforçando. Analisar as ações do outro baseados na nossa realidade e no nosso pré-julgamento não adianta nada nesses casos. O nosso máximo esforço pode ser muito diferente do máximo esforço do outro, e ao nossos olhos pode parecer que os outros não se esforçam. Mas isso é sempre um engano. As pessoas sempre dão o melhor de si, mas o melhor de cada um é sempre muito diferente.

Quando lidamos com criancas com deficiências, rapidamente entramos em contato com os nossos limites, e nossa habilidade de julgar o outro baseado na nossa realidade. E por isso que a inclusão é tão dificil, e por isso tem sido tão falha. Como podemos entender a realidade do deficiente visual, quando enxergamos perfeitamente? Como podemos entender as dificuldades diárias, nas atividades do dia-a-dia, nas atividades escolares, quando nossa vida é completamente diferente?

Alguns profissionais desenvolveram cursos e materiais que possibilitam uma espécie de vivência. Os pais, professores e interessados passam o dia com olhos vendados ou com um óculos que simula a forma como eles enxergam. Se colocarmos no papel o número de interessados em fazer esse curso, em relação as pessas que trabalham com educação e deficiência visual, o número desanima. A verdade é que nem todos estão dispostos a sair de seus confortáveis lugares e passar um dia que seja vivendo a realidade de outro, e suas dificuldades. Isso tudo mexe muito na psiquê de cada um, e nem todos aguentam o tranco.

Tudo isso nos faz voltar ao início de tudo, que é, cada um faz o que pode, cada um faz o seu melhor, mas não necessariamente esse melhor é o melhor para o outro. As minorias têm que se adequar a todo um mundo diferente e muito mais difícil do que a realidade delas.

A inclusão não funciona, porque ela não é só externa. Não é só a forma como o professor age com o aluno, como a escola disponibiliza ou não material didático para os alunos. A inclusão começa dentro de cada um. E isso não é fácil pra ninguém. Abandonar concepções que muitas vezez acompanham a pessoa por toda uma vida não é nada fácil, quando se tem tantas certezas, e poucas dúvidas, questionar parece muito dolorido e desnecessário.

Para incluir, temos que julgar menos, temos que sair da nossa zona de conforto, sofrer um pouco, questionar mais, se colocar mais no lugar do outro, mas não partindo da nossa realidade, e sim partindo da realidade do outro. Quando fazemos esse movimento, não obtemos muitas respostas, mas construimos mais perguntas, e assim começamos vagarosamente a mudar algo dentro de nós mesmos. Essa é a pequena semente, do começo de um processo que poderá se tornar inclusivo.

Utópico? Na realidade social de hoje parece que sim. Mas quando olhamos o trabalho de centenas de pessoas que lidam com a questão da inclusao por paixão (ou necessidade), ai percebemos que nada é impossível quando se quer. O duro é querer. E ainda não temos a capacidade de fazer o outro desejar os nossos desejos. E isso também não nos dá direito de julgá-lo. Só nos coloca numa posição delicada. Ter empatia é muito difícil, super delicado, e por vezes frustante, porque não tem nada a ver com justiça.

Tenham em mente: incluir não é só encher a escola de materiais novos. também não é somente aumentar letras e disponilibizar livros em braile. Não se trata de empurrar para frente o aluno deficiente, no sentido de fazer menos para que ele passe mais fácil. O aluno deficiente visual é tão inteligente quanto qualquer outro aluno, só precisa de uma outra realidade para se desenvolver. A inclusão começa quando nos interessamos em descobrir quais são as diferenças do outro, como eles lidam com isso, e se tenho interesse em ser algum tipo de facilitador para seu processo de aprendizagem/desenvolvimento.

0
Oct
06
2009

Querem nos calar

Querem nos calar

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Na internet todos temos  direito de expressar nossas opiniões. Ou deveríamos. Por isso tivemos explosões de blogs/ páginas pessoais, redes sociais. Todo mundo queria falar alguma coisa sobre qualquer coisa. Todo mundo queria ser ouvido. Até que as pessoas começaram a se ler, ou melhor, ler o que os outros estavam dizendo por ai.

Com tantas opiniões diferentes, a moda agora é discordar. É apontar no discurso do outro todas as falhas que ele deixa transparecer, seja sobre sua personalidade, seu caráter, ou sobre qualquer outra coisa menor. Se você é a favor do Lingerie Day, um bando de gente vai apontar o dedo, criticar, rir da sua cara, dizer que você é menos humano, burro ou ingênuo. Se você é contra o Lingerie Day, outra patotada de gente vai dizer que você é menos humano, burro ou ingênuo. Se você é a favor do Polanski, vão querer te convencer que você está errado. Se você é contra, outra metade vai dizer que você não é ponderado. Resumindo: ter uma opinião e divulgá-la na internet te torna uma pessoa com problemas. Ser contra ou a favor de algo te coloca na berlinda.

Outra moda é falar mal da classe média. Eu e o Rodrigo (@cheapo) estávamos conversando sobre isso outro dia. A culpa é da classe média por tudo: ela é culpada pelo trânsito, pela fome, por pagar seus impostos em dia ou atrasado, por não colocar seus filhos na escola pública e lutar pela educação, etc, etc. Antes era moda falar mal da classe alta, e antes disso da classe baixa. Mas o fato é que a culpa sempre ter que ser só de uma parte das pessoas, nunca de todas. (Esqueci que somos divididos entre mocinhos e vilões, e alguém tem que ser o vilão para que eu possa ser o herói ou a mocinha.)

O fato é que não podemos ter uma opinião, principalmente se ela for diferente da de alguém. Há o grupinho das pessoas que querem te calar, porque a verdade é que ninguem gosta da diversidade. Ninguem gosta de opiniões contrastantes. Deveriamos ser todos iguais. E tem um bando de gente ai na internet pra encher teu saco se você é diferente e insiste em argumentar sobre isso.

A internet reproduz o que acontece na sociedade já faz tempo: felizes são aqueles que se calam, pois esses não são julgados, não são usados como símbolo do mal/bem, não são atacados/idolatrados ou almadiçoados/abençoados. Feliz é aquele que não tem opinião, ou não tem coragem de defendê-la. Mais felizes ainda são aqueles que ficam no computador, sentados, esperando alguém divulgar uma opinião e defendê-la. Estes estão sedentos por alguém para apontar, criticar, rir e julgar. Desses e dos quietos temos muitos.

Ter opinião não é fácil. É necessário crítica pra não entrar na dos outros sem nem saber porque. Mas, precisa ter peito mesmo é pra dizer sua opinião e sustenta-la. Mais peito ainda para, eventualmente, perceber que estava errado e voltar atrás. Num mundo onde muitas pessoas estão antenadas para quem será o proximo alvo a ser apontado, você  que sustenta sua postura e assume seus erros, você pode ser a próxima víitima.

Obs.1: Somos divididos em rebanhos, não é mesmo? Há o rebanho dos sem opinião (ou sem coragem) e o rebanho do vamos apontar dedos e falar mal disso agora. Nao querer participar de um rebanho te deixa sozinho, e isso te deixa vunerável.

Obs 2: Ninguém é totalmente inocente: quantas vezes nós mesmos entramos  no rebanho dos que não aceitam opiniões diferentes, e ficamos apontando as falhas do outros? A mudança sempre começa em casa, por nós mesmos.

1
Sep
12
2009

O diferente que incomoda

cavalo ideal

O imperativo de gozo da nossa sociedade capitalista é um dos maiores causadores do nosso sofrimento “contemporâneo” (se é que há algo de contemporâneo nisso). Você deve comer tudo que se vende nos melhores restaurantes, andar no melhor carro, ter os melhores aparelhos eletrônicos que te fazem passar o dia sentado numa cadeira e depois ainda têm que ser magros como as modelos anoréxicas da tv. Querem te fazer acreditar que vê pode um dia ser um cavalo, mas a verdade é que isso nunca vai acontecer. Somos diferentes.

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